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editorial
"Um convite para visitar o Museu Nacional de Arqueologia"
Ainda hoje, para muitos, o Museu Nacional de Arqueologia continua a ser conhecido por “Museu Etnológico do Doutor Leite de Vasconcelos” ou simplesmente por “Museu de Belém”. Existem boas razões para que assim seja. Por um lado, este museu foi, durante décadas, a única instituição do seu tipo que existiu em Belém, e mais concretamente no Mosteiro dos Jerónimos, para onde no princípio deste século foi transferido (a partir do edifício da Academia das Ciências de Lisboa), constituindo-se em pólo aglutinador de uma inteligentzia nacional que incluia nomes como os de Leite de Vasconcelos, Félix Alves Pereira, Vergílio Correia, Luis Chaves, Guilherme Gameiro, Francisco Valença ou Stuart Carvalhais. Por outro lado, quando em 1893 José Leite de Vasconcelos fundou o Museu, pretendia com ele desenvolver uma dimensão etnológica global, juntando passado e presente, material e simbólico, numa espécie de “museu do Homem Português”. E apenas nos anos 60 essa designação histórica foi parcialmente abandonada, dando expressão ao percurso que entretanto a instituição fizera, sob a direcção de Manuel Heleno, quando a especialização e repartição dos saberes levou a que nela as colecções arqueológicas se tornassem esmagadoras e a componente etnológica ficasse residual.
Fruto desta longa história, de que muito se orgulha, o actual Museu Nacional de Arqueologia do Doutor Leite de Vasconcelos, afirma-se, pois, como a principal unidade museológica da arqueologia em Portugal e uma das mais importantes da sua especialidade a nível internacional. As suas colecções,vastíssimas e repartidas por núcleos temáticos muito diversificados, cobrem todos os períodos históricos, desde os primeiros ocupantes do território, até à fundação da nacionalidade portuguesa.
Os sucessivos períodos da Pré-história encontram-se nelas especialmente bem representados. Tal é o caso dos instrumentos de pedra lascada e restos faunísticos provenientes de acampamentos de ar livre e de grutas ou abrigos sob rocha do Paleolítico, especialmente em regiões como as do Vale do Tejo e Rio Maior; dos esqueletos humanos dos concheiros mesolíticos do rio Sado; das cerâmicas e objectos votivos colocados em grutas sepulcrais do Neolítico, como a do Escoural, em Montemor-o-Novo; do conteúdo dos espólios funerários de centenas de antas do Alentejo e Beiras; dos magníficos conjuntos de ídolos e outros objectos em calcário, da Idade do Cobre estremenha, provenientes de túmulos escavados na rocha... A Proto-História marca presença através de colecções de cerâmicas e objectos metálicos provenientes de povoados fortificados, ditos “castros”, e de necrópoles onde, em alguns casos, se registam os sinais de contactos regulares com os povos do Mediterrâneo, sendo célebres os vasos gregos encontrados em Alcácer do Sal. Deste período ainda, datam alguns dos principais ex-libris deste Museu: as estátuas de guerreiros em granito do Norte de Portugal, ditos “lusitanos”, as quais, bem ou mal, têem sido utilizadas como símbolos identitários da própria cultura portuguesa; e a espantosa colecção de ourivesaria arcaica apresentada na sala “Tesouros da Arqueologia Portuguesa”, seguramente uma das mais notáveis do seu género em toda a Europa e por si só motivo de visita a Portugal por parte de conhecedores da matéria e da deslocação a Belém de numerosos turistas interessados em temas históricos. Os vestígios do Período Romano representam outro grande núcleo do acervo deste Museu. Neles se incluem materiais recolhidos em locais situados nos campos (como é o caso da villae, de que podem servir de exemplo as de Torre de Palma, no concelho de Monforte, ou de Milreu, em Faro, com colecções notáveis de mosaicos e escultura), centros industriais (caso do centro fabril de Tróia, especializado na produção de pastas de peixe) e de centros urbanos (entre os quais cumpre salientar alguns dos mais importantes achados desta época feitos na Baixa de Lisboa). Os períodos pós-romanos encontram-se mais discretamente representados neste Museu, sendo todavia dignos de referência algumas inscrições e elementos arquitectónicos paleo-cristãos e sobretudo o expressivo núcleo de materiais islâmicos que o público pode durante os próximos meses observar na exposição temática que o Museu anualmente promove e presentemente se consagra à apresentação do “Portugal Islâmico: os últimos sinais do Mediterrâneo”. Finalmente, acrescenta-se ao acervo proveniente do território português aquele que resulta de aquisições, doações ou legados, em grande parte constituído por colecções estrangeiras. Estão neste caso, por exemplo, parte das colecções de arqueologia da antiga Casa Real portuguesa e os núcleos de diferentes civilizações pré-clássicas e clássicas da bacia do Mediterrâneo, de que é exemplo um precioso conjunto de “Antiguidades Egipcias”.
Como em qualquer museu de arqueologia da dimensão e com as responsabilidades deste, não seria porém suficiente possuir vastas e importantes colecções de materiais arqueológicos. O arqueólogo – nunca é demais repeti-lo – distingue-se do antiquário porque o centro do seu interesse não são os objectos, em si mesmos, mas os contextos históricos que eles possam evocar. É preciso “fazer falar” os objectos mudos. Para o conseguir, o Museu Nacional de Arqueologia possui poderosos meios de investigação e edita publicações diversas, entre as quais a sua revista científica centenária, “O Arqueólogo Português”. O contacto com as reservas, gabinetes de estudo, laboratórios, biblioteca e demais serviços internos constituiriam um outro e enriquecedor percurso de aprendizagem. Só assim seria possível compreender tudo o que se esconde por detrás, e precede, o acto de apresentação de uma peça numa vitrina. O nosso desejo é que este sítio possa constituir uma poderosa ferramenta ao serviço de tal descoberta. Mas não somos dos que partilham a visão de um mundo onde a realidade virtual possa ser entendida como sucedâneo, e menos ainda, substituto da realidade material. Por isso daqui lançamos ao cibernauta o convite de vir juntar-se a nós um destes dias, visitando as nossas exposições e aproveitando esta página como instrumento informativo dos múltiplos programas em que regularmente vamos dando conhecimento do “lado oculto” das nossas colecções e dos nossos serviços. Até breve, pois. aqui deixamos convite para se juntar a nós na primeira oportunidade, estando atento às informações que vamos recolhendo nesta página futuras ocasiões em que o Museu promova este tipo de visitas.
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